23 maio 2012

Mulheres e a prática de atividades físicas



Há tempos são conhecidos os benefícios que os exercícios físicos, desde que praticados de modo correto, trazem para a saúde e a qualidade de vida. As vantagens fisiológicas são evidentes, como melhora no sistema circulatório e imunológico, na eficiência cardíaca, nas taxas de oxigênio no sangue, fortalecimento muscular e dos ossos, alívio nos sintomas da TPM, além de redução da pressão arterial, dos níveis de lipídios e glicose entre outros. Ainda, durante as atividades físicas, o corpo libera a serotonina e a endorfina, substâncias relacionadas à sensação de bem-estar, pois auxiliam na regulação do sono, na diminuição do estresse e da ansiedade, assim como do mau humor, e atuam no controle do apetite e da temperatura corporal.

As atividades físicas também auxiliam no desenvolvimento de capacidades como a disciplina, concentração e atenção, competências que podem ser levadas para outros aspectos da vida. Além disso, quando praticadas em grupo, constituem uma maneira de encontrar pessoas, conviver com amigos e descontrair, proporcionando maior disposição e energia para o trabalho e o estudo.

Apesar das inúmeras vantagens advindas da prática dos exercícios físicos, segundo dados daSport+Markt, e variando bastante de acordo com a faixa etária e a classe social, no Brasil, 51% dos homens são sedentários, ao passo que 72% das mulheres não praticam atividades físicas. O perfil dos que mais se exercitam no país é composto por uma minoria de homens jovens (entre 16 a 24 anos) e de elevada renda.

O sedentarismo constitui um problema da sociedade contemporânea em âmbito mundial, bastante influenciado por questões culturais e sociais e por políticas públicas que vão além da saúde, como urbanismo, ocupação de solo, emprego, educação, transportes, lazer etc. Assim como em outros países, no Brasil, em vez das políticas públicas incentivarem e oferecerem condições à prática regular de atividades físicas dentre a população, os gastos na área da saúde são direcionados para tratar de doenças que poderiam ser facilmente evitadas se os exercícios esportivos fizessem parte do estilo de vida das pessoas, assim como tomar banho e alimentar-se. Num país de sedentários, em detrimento da saúde coletiva, são as grandes indústrias farmacêuticas e os planos de saúde que lucram com doenças relacionadas ao sedentarismo.


Foto de jacsonquerubin no Flickr em CC, alguns direitos reservados

Como os dados da pesquisa demonstraram, a situação das mulheres brasileiras quanto à prática esportiva está abaixo do desejável. A seguir, procuro discorrer a respeito de algumas das possíveis causas.

Falta incentivo desde a infância

Desde a infância, a maioria das meninas é educada para que desenvolvam uma estética corporal que preza por uma movimentação contida e com músculos pouco desenvolvidos. Há, portanto, a valorização da passividade, da delicadeza, da não-agressividade para que, no futuro, tornem-se mulheres “femininas”, ou seja, o oposto do que se espera que os meninos se tornem. Mesmo nas brincadeiras entre as crianças, muitas das meninas são desestimuladas a correr, a levantar peso – como carregar os colegas -, a jogar futebol entre outros, em geral, com frases que invocam o sexo biológico: “Ai, você vai ser a única menina a brincar com os meninos…”, “Meninas não podem ficar levantando peso, faz mal”, “Não pega bem ficar correndo, porque você é menina”, como se ter nascido menina fosse uma doença. Além disso, meninas que praticam atividades esportivas sofrem preconceito por serem vistas através dos estereótipos de “machonas”, “moleques” e “sapatões”, como se também a homossexualidade fosse uma enfermidade a ser evitada e controlada desde a infância.

Por outro lado, pouco ou quase nada se investe nos esportes femininos quando refletimos sobre formação de atletas e os grandes eventos competitivos amplamente televisionados e propagados na mídia. Como não se incentiva nem se investe, raramente surgem atletas mulheres que impactam as novas gerações de meninas e tornam-se ídolos no esporte, num ciclo que se retroalimenta e que dificulta a adesão em massa das mulheres nas atividades físicas e nos esportes em geral.

Visto que a maioria das mulheres não costuma praticar exercícios físicos, falta aquela disposição internalizada para começar a se movimentar. Em geral, elas não conhecem grupos de mulheres que pratiquem esportes ou se sentem desmotivadas a iniciar atividades sozinhas. Além disso, começar a praticar exercício físico a partir de uma certa idade é visto como um entrave para algumas mulheres.

Dupla jornada feminina

Um assunto bastante discutido no feminismo e neste blog se refere à dupla e, às vezes, tripla jornada das mulheres que, ao trabalharem fora e serem, tradicionalmente, as encarregadas dos cuidados com os filhos e a casa, acabam não dispondo de tempo para se dedicarem à prática das atividades físicas e a outros cuidados pessoais. Esse fator pode variar de maneira radical se considerarmos a classe social das mulheres. As mais ricas e que trabalham fora de casa, por exemplo, têm a possibilidade de deixar os filhos sob os cuidados de babás ou funcionários enquanto podem dedicar-se a outras atividades, como os exercícios físicos. Em famílias de baixa renda, por sua vez, além de não sobrar tempo, pode faltar dinheiro dependendo da atividade que se quer praticar, investimento muitas vezes necessário para se matricular em algum curso ou para a compra de vestuário e equipamentos.

“Comece uma revolução, pare de odiar seu corpo”. Foto de Amanda Marino no Facebook, para a Campanha “Love Yourself”

Vergonha do próprio corpo

Muitas mulheres deixam de realizar uma atividade física fora de casa por vergonha do próprio corpo. Algumas se consideram gordas e longe de atingirem os padrões de beleza vigentes na sociedade, largamente propagados em capas de revistas com atrizes e modelos famosas. Portanto, fazer uma caminhada ao ar livre, andar de bicicleta, ir a uma academia de musculação/ginástica, frequentar aulas de dança, por exemplo, tornam-se tarefas humilhantes para essas mulheres.

Nesse sentido, na maioria das vezes que algumas mulheres começam, finalmente, a se movimentar, o motivo evocado consiste na perda de peso e na beleza corporal. O receio de engordarem e de ficarem “feias” faz com que muitas delas recorram à prática de atividades físicas e a dietas de redução de peso que, às vezes, acabam sendo medidas passageiras, sem que se crie o hábito de se exercitarem de maneira regular.

Da motivação

Claro está que a atividade física é uma poderosa aliada do emagrecimento e que um corpo magro constitui o padrão valorizado pela nossa sociedade atualmente, contudo, proponho que este aspecto não seja o único a ser levado em conta. Por que não investir recursos numa educação física a fim de manter a saúde e o bem-estar a longo prazo, com benefícios para a vida inteira?

Não seria mais interessante encontrar motivação no prazer advindo do exercício físico do que se encaixar, a qualquer custo, num padrão de beleza que oprime a maior parte das mulheres? Tanto se clama pelo empoderamento das mulheres de seus próprios corpos em questões relativas ao aborto e à sexualidade que, aqui, esta reinvindicação também se faz necessária, para que elas não sejam mais alienadas do próprio corpo e que ocupem todos os espaços possíveis, inclusive o das atividades físicas e esportivas, que deveriam ser feitas, antes, pelos benefícios imediatos que essa prática traz ao organismo do que para reverter os contornos de um corpo “fora” do padrão.

Comecem a gostar do seu corpo, das sensações que ele transmite, perceba o que ele comunica, como ele se movimenta e quais são suas necessidades, porque isso também significa uma tomada de consciência e uma revolução a partir de dentro.

Dicas:

- Antes de começar a praticar exercícios físicos, é recomendável passar por uma avaliação com profissionais da saúde e educadores físicos;

- Procure não começar por uma atividade física da qual você não gosta, porque se manter ali será bastante estressante ao longo do tempo. Se você não aprecia musculação, mas gosta de corrida, comece a praticar corrida e passe longe das academias por enquanto;

- A falta de tempo e de dinheiro para praticar exercícios físicos pode ser amenizada com simples mudanças de hábitos, como ir a pé aos lugares menos distantes, subir as escadas em vez do elevador, não tomar o ônibus no ponto mais próximo, mas no seguinte e usar o controle remoto da televisão apenas de vez em quando;

- Não quer se exercitar sozinha? Tente convencer mais pessoas queridas a lhe acompanhar ou procure grupos de exercícios na sua cidade. O importante é praticar exercícios físicos por você, para o seu prazer e para ser uma mulher saudável a longo prazo.


* Agradeço ao médico e amigo Bruno Mariani Azevedo, pela leitura.

Karen Polaz

Sou formada em Ciências Sociais e faço mestrado em Sociologia da Educação, mas também amo dançar, escrever, desenhar, assistir filmes, viajar, comer chocolate e por aí vai e tudo vai meio que nesses sentidos.

Postado no blog Blogueiras Feministas em 23/05/2012

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