08 maio 2012

Para além do estereótipo materno


As tarefas e papéis femininos, na nossa sociedade, são recorrentemente definidos por dicotomias:
Mulher cuidadora x Mulher trabalhadora
Mulher decente (santa) x Mulher vulgar (vadia)
Mãe abnegada x Mãe desnaturada viciada em trabalho
A mulher que assume a função materna, na nossa sociedade, se vê diante da encruzilhada:
Mulher trabalhadora x Mãe abnegada
Esses dias li a entrevista da Elisabeth Badinter (em inglês) sobre o livro “O Conflito: a Mulher e a Mãe” que foi lançado em abril aqui no Canadá. Já tinha lido também entrevistas dela no IG e na Veja quando o livro foi lançado no Brasil, ano passado.
Capa do livro "O Conflito: A mulher e a mãe".
Acho que este debate é super importante e, apesar de ainda não ter lido o livro, acho alguns apontamentos da autora muito interessantes e  necessários mas, em alguns pontos, superficial. Quando leio sobre os papéis que as mulheres devem exercer com perfeição para serem respeitadas na sociedade sempre tenho arrepios. Não seria diferente com o papel de mãe ou de trabalhadora.
A mulher na nossa sociedade, parece-me, está sempre numa encruzilhada, tendo que abrir mão de algo, nesse caso não é diferente. A maternagem x a vida profissional assim colocado só traz desvantagens à mulher. Ter que se enquadrar em um padrão, seja ele qual for não vai necessariamente fazer alguém melhor ou pior, mas vai colocá-la num lugar em que uma escolha anula a outra e assim ao abrir mão de uma coisa pela outra a mulher fica em desvantagem. Além de ser sempre julgada pela sua decisão.
Os apontamentos negativos de Badinter em relação a maternagem me incomodam, mas não necessariamente por que a maternagem sobregarrega ou tira a mulher do mercado de trabalho, e sim por deixar implícito no seu discurso que a maternagem excluiria @ parceir@ da mulher, além da heteronormatividade que exclui da cena os casais homossexuais masculinos que tem filhos.
Foto de Uber Times no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Por que eu acho que desencorajar amamentação, slings, fraldas de pano, não vai incluir automaticamente @s parceir@s a partilhar as responsabilidades na parentagem. Afinal copinhos, colherinhas, e máquinas de lavar não são objetos misteriosos que @s parceir@s que estejam realmente dispostos a se implicar em partilhar do cuidado com os filhos não consigam desvendar.
Outra coisa que me incomoda é que, apesar de reconhecer a importância do trabalho feminino para sua autonomia e independencia, incitar a volta ao trabalho à mulher que deseja dedicar-se aos seus filhos é retirar-lhe a escolha. E isso se faz pelo bem de quem? Quando li a entrevista de Badinter pensei em duas questões:
A quem interessa à volta rápida da mulher ao mercado de trabalho?
A quem interessa a permanência da mulher/mãe junto aos filhos?
Minha resposta a essas duas questões é a mesma: ao capitalismo patriarcal. Ao se associar ao patriarcado, o capitalismo se aproveita de todas as ocasiões para tirar proveito da imposição de padrões.
Penso que ao decidir nos reproduzir estamos de alguma forma contribuido para a perpetuação dostatus quo, no sentido que criamos nossos filhos para se adequarem a sociedade vigente. Fazê-lo sem reflexão, apenas reproduzindo comportamentos e preconceitos, não vai nos fazer evoluir enquanto sociedade.
Ideal, para mim, seria uma sociedade em que a maternidade não fosse uma seara exclusivamente feminina. Que mulheres não se percebessem, nem fossem percebidas como únicas responsáveis pelos cuidados com os membros da família, sejam crianças ou idosos. Que os dois adultos responsáveis fossem igualmente implicados e compartilhassem igualmente todas as tarefas da casa e também as relacionadas aos cuidados, higiene, saúde e alimentação de crianças e idosos.
Considero fundamental para isso muitas mudanças, inclusive à nivel de linguagem, começando pela mudança do termo maternagem por parentagem. Outro ponto que considero importante é a extenção e compatilhamento da licença-maternidade que hoje é exclusiva da mulher, e deveria ser e chamar-se liscença-parental, para @s adult@s com filhos recém-nascidos. Para que @ parceir@ esteja presente e possa se implicar nos cuidados. Para isso acontecer é necessário também a implicação do Estado como criador de dispositivos que garantam a estabilidade no trabalho e instituições como creches que ajudem mães e pais na tarefa de cuidar de seus filhos.
E por fim, é necessário que nos tornemos protagonistas de nossas escolhas. Enxerguemos o machismo, que está por trás do papel de cuidadora que as mulheres incorporam sem questionar, como se fossem feitas para isso. Que aprendamos a delegar mais e não sejamos cobradas ou julgadas por isso. O vínculo da criança com seu cuidador deve ser igualmente dividido entre aqueles que estão implicados na sua educação. O vínculo materno não deve ser nem mais, nem menos importante do que o vínculo com outr@ parceir@. A imposição de padronização de papéis nas relações e arranjos familiares ou nas responsabilidades de cada um dos envolvidos na situação só traz prejuizos.
Bom mesmo é ser livre para escolher o que se quer fazer. Mesmo por que maternagem não implica, necessariamente em alienação do mundo, da vida ou do trabalho. É possível ser feminista, militante, trabalhadora, monoparental e assumir a maternagem. Né não, Luka? O importante é refletir sobre a nossa condição e termos sempre o direito de fazer nossas escolhas.


Liliane Gusmão

Feminista, sim eu sou!



Postado no blog Blogueiras Feministas em 08/05/2012



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