10 novembro 2012

A sentença que cabe aos filhos dos condenados



O ser humano é, em sua maioria, um animal covarde. Quando consegue se camuflar na matilha ou se esconder no anonimato, é o mais cruel dos espécimes que habitam o planeta.

Essa maldade vem muitas vezes travestida de sentimento de justiça. Curiosamente, costuma atingir pessoas inocentes. E a execração pública é um instrumento muito eficaz quando se quer punir indistintamente os poderosos, sejam eles culpados ou não.

Como é raro neste país que magnatas ou políticos sejam pegos em flagrante, quando isso acontece, a horda se comporta como talibãs em fúria: pedras na mão, atiradas a esmo, numa chuva de ataques em alvos em movimento. Por mais fortes que estes sejam, há sempre um ponto frágil, vulnerável: seus familiares - e, neles, as maiores vítimas, os filhos.

Qualquer pessoa sabe que ninguém merece pagar pelos crimes ou erros que os pais cometem. Mas alguma mesquinharia insondável faz com quem essa regra de decência nunca seja cumprida.

Os exemplos desse bullying coletivo são inúmeros. Pelo frescor dos fatos, basta ver o que vem acontecendo com os parentes dos condenados pelo Supremo no caso do chamado mensalão.

Dessa nem sempre silenciosa sentença de morte social participam inclusive diretores de escolas, como os que recusaram a matrícula do filho de 11 anos do megacondenado Marcos Valério. Muito pedagógico.

Nessa dosimetria perversa, a filha mais velha do vilão, de 21 anos, teve que se retirar da sala de aula de psicologia quando um professor sádico sugeriu que a classe debatesse os crimes cometidos pelo célebre pai.

José Dirceu não pôde comparecer à formatura da filha, sabendo que seria hostilizado, como já fora em outras ocasiões em que se apresentou em público no papel de pai. Também se tornou pública a dolorosa carta que a filha de José Genuíno publicou nas redes sociais. Tamanho desagravo só pode surgir de muita angústia pessoal — de alguém claramente inocente.

Sem entrar em quaisquer méritos, escolhi como exemplo esses três personagens pela ampla antipatia que despertam em pessoas comuns. Consigo imaginar murmúrios de “bem feito”, “filho de peixe” e outros requintes na linha do “domínio do fato”: não é razoável imaginar que os rebentos não soubessem das malvadezas praticadas pelos genitores.

Se a lei prevê o benefício da dúvida aos réus, a presunção da inocência de seus familiares deveria ser um dogma. Mas, na prática, o que prevalece é um justiçamento medieval, em que até as gerações futuras são amaldiçoadas.

Um mínimo de humanidade seria bem-vindo. Mas não adiantaria muito. Afinal, o ser humano é, em sua maioria, um animal covarde.

Postado no blog O Provocador em 0811/2012

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