05 dezembro 2012

O porteiro, os miseráveis e meu plano de saúde


Dia do Porteiro Novembro



Marco Antonio Araújo

Não está fácil para ninguém. Até Danuza Leão percebeu isso, no infeliz artigo em que declarou que ir a Nova York já teve seu encanto, “mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?”. Fico sem palavras glamourosas diante dessa constatação.

Uma figura bem menos elegante, que responde pelo nome de Luiz Carlos Prates e se diz jornalista, já havia percebido as desgraças da ascensão social ao dizer que hoje, no Brasil, “qualquer miserável” compra um carro zero. Um problemão, né?

Eu pretendo aqui dar minha singela colaboração a esse debate. Estou muito preocupado com meu plano de saúde. Afinal, nos últimos seis anos, mais de 11 milhões de pessoas entraram para esse antigamente seleto grupo de cidadãos.

Graças à (tímida) distribuição de renda a que assistimos, milhões de “pessoas diferenciadas” advindas das classes C e D, e que antes só iam ao médico em caso de urgência e usando a rede pública, agora adquiriram o direito de frequentar a rede privada.

Já consigo imaginar hospitais particulares superlotados como saguão de aeroporto. Fazer uma ultrassonografia se tornou tão banal quanto comprar ingressos para os musicais da Broadway.

Levantamento sobre planos de saúde, feito por uma consultoria, mostra que entre 2006 e 2012 o número de consultas aumentou 8,3%, o de internações, 7,4%, e o de exames, 29%. O que nunca foi uma maravilha, tudo indica, em breve vai se tornar um gargalo tão sofrido como o SUS.

Hospitais outrora relativamente tranquilos lidam com espera de duas horas em seus prontos-socorros. Já se tornou comum faltar vagas para internação.

Isso, claro, causou uma primeira (e por enquanto, única) providência: o aumento do preço dos serviços de saúde. O valor médio gasto em uma internação subiu 47,3% nos últimos seis anos.

Como as agências reguladoras deste país são notoriamente inúteis e omissas, um pesadelo bate à porta dos laboratórios, hospitais e enfermarias.

Se resolvesse, vendia meu carro zero e me mandava pra Nova Iorque. Mas, pelo visto, não ia adiantar nada. Este mundo está ficando muito sem graça. Né?


Postado no blog O Provocador em 03/12/2012

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