15 maio 2013

A única certeza que nos cabe


Eduardo Guimarães


Vez por outra, perscrutando as ondas da comunicação que engolfam o mundo contemporâneo, você detém o ritmo alucinante do cotidiano e presta atenção a notícias sobre descobertas da astronomia. Em geral, é atraído por imagens de estrelas, planetas ou galáxias.


Nesses átimos de sua vida, por minutos ou até segundos, muitas vezes sem ao menos perceber, você se permite reflexão que, se fizéssemos mais amiúde, talvez levássemos nossas curtas vidas de forma mais sábia – ou menos ignorante e arrogante.

Nos anos 1980, aos meus vinte e tantos anos, assisti pela primeira vez à série de TV Cosmos, do astrônomo, astrofísico e cosmólogo norte-americano Carl Sagan. Navegando pela internet, sempre esbarro em um vídeo feito vários anos depois, mas que é considerado parte da série de Sagan e que inspirou-se em livro que ele publicou em 1994, “Pale Blue Dot”, ou, em português, “Pálido Ponto Azul”.

Essa obra baseou-se na missão da sonda espacial Voyager, lançada ao espaço pelos Estados Unidos em 5 de setembro de 1977 a fim de estudar o Sistema Solar exterior e o espaço interestelar.

A incrível máquina produzida pelo engenho humano está em operação há mais de 35 anos. Até hoje obedece aos comandos da NASA e responde enviando dados à Terra.

Em 1990, foi enviado um comando a Voyager 1 para se virar e tirar fotografias dos planetas que havia visitado. Uma dessas imagens era da Terra, então distante 6,4 bilhões de quilômetros da sonda.

A fotografia mostrou nosso planeta como um “pálido ponto azul”, um grão de poeira cósmica, o que excitou a imaginação de Carl, levando-o a escrever um verdadeiro poema que induz a humanidade a uma das muitas reflexões que a astronomia, a cosmologia e a astrofísica nos impõem.

Antes de nossa jornada, neste texto, rumo a teorias científicas cujas implicações têm poder para alterar a percepção de toda humanidade sobre si mesma, assistamos a um dos momentos mais belos da inteligência humana, a reflexão de Carl Sagan sobre o “Pálido Ponto Azul” no qual micróbios ditos humanos chegam a acreditar que são “poderosos”.


Talvez você não tenha entendido ainda, leitor, por que um blog político publica um post sobre a exploração do espaço e a eterna busca do homem por suas origens e pelo desvendamento da Criação. A política, a busca pelo “poder”, porém, tem tudo que ver com esse que é o ramo mais nobre da ciência.

As teorias científicas que buscam entender a origem e o destino da existência vão muito além do que supõe a quase totalidade da espécie humana. Poucos são os que atentam suficientemente para fatos que revelam que tudo o que consideramos “importante” não passa de preocupações de micróbios com suas desprezíveis questões microbianas.

A luta pelo “poder” político, as paixões mundanas, as preocupações com aparência física, bens materiais e até com a finitude da vida perdem razão de ser diante de teorias que nos levam muito além da perplexidade.

As teorias mais ousadas da astrofísica encampam até a de que não existe apenas um universo, mas vários universos paralelos que brotam um do outro como bolhas de uma terrina contendo uma solução prosaica de água e sabão.

Nesses outros hipotéticos universos paralelos, a ciência aceita, ainda que como mera especulação fundada em teorias não comprovadas, que possam existir cópias exatas de nosso mundo e até de cada um de nós (!).

O canal a cabo History Channel apresentou o programa “Universos Paralelos”. As fantásticas teorias que esse programa expõe têm o poder de nos fazer refletir, nestes dias em que nossas paixões mundanas nos levam a paroxismos de egocentrismo e arrogância, que, diante de mistérios dessa magnitude, ser um pouco mais humildes é o mínimo que nos cabe.

A teoria principal é a de que existem cópias de cada um de nós habitando um planeta, um sistema solar e um universo idênticos, mas nos quais a interferência humana ou nossas decisões cotidianas nos levaram por caminhos diferentes dos que trilhamos.

Em um desses supostos universos paralelos, nosso alter ego pode ter uma visão política diferente, podemos ter nos casado com aquela mulher ou com aquele homem que não nos quis ou que não quisemos.

O alter ego de um homofóbico pode ser homossexual.

O bilionário pode ser um mendigo.

O fanático religioso pode ser ateu.

Em que cada uma dessas decisões afetaria o universo? Em nada.

Em um universo paralelo a Terra pode nem mais existir, tendo sucumbido após ter sido atingida por um asteroide. A guerra nuclear que aqui nunca ocorreu, pode ter ocorrido lá e extinguido a espécie humana – e quem sabe, até, toda a vida no planeta.

São reflexões e hipóteses que podem nos levar a uma forma de enxergar a vida que nos faça abandonar certezas que, diante de nossa extrema ignorância sobre tudo, são mais do que ridículas.

Esta reflexão o fará concluir, leitor, que homens – esses micróbios cósmicos – que pretendem ser porta-vozes de um Ser Superior, por exemplo, não têm como responder nem a perguntas básicas sobre a origem do chão em que pisam.

Assim, talvez você, como eu, conclua que a única certeza da vida reside no fato de que não podemos ter certeza alguma.

Assista abaixo, pois, ao programa Universos Paralelos. Se acatar esta sugestão, talvez possa tirar o resto do dia para refletir sobre suas certezas. Tal reflexão mudaria a sua vida até seu último dia neste grão de poeira cósmica que chamamos de “Terra”.


Postado no Blog da Cidadania em 15/05/2013

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