25 junho 2013

Da classe média à classe mídia



Juremir Machado da Silva

É a classe média que está nas ruas.

É a mídia que tenta decifrá-la.

Apesar dos seus detratores, a classe média é como todo mundo. Tem seus devaneios. Há quem a condene por se achar mais alta do que é. Outros a censuram por se rebaixar demais.

O problema da classe média, se problema há, pode ser o de aceitar facilmente ser classe mídia.

Na onda das manifestações que incendeiam o Brasil, a classe mídia flerta com outra formulação dessa entrada de jogo:

– A onda das manifestações que “assolam” o Brasil.

A classe média, nessa hipótese meramente especulativa, deixa-se manipular com certa facilidade e sonha com saídas messiânicas em nome da ordem nacional:

– Joaquim Barbosa para presidente.

Parte da mídia quer construir a pauta da classe média. Um típico comunicador, empenhado em fazer da classe média uma dócil classe mídia, não se conteve:

– É só botar o José Dirceu na cadeia que essa gente para.

A galera pode estar nas ruas contra a “peemedebização” e contra a “petização” do país: um recebe os cargos que o outro distribui. Esses comportamentos pouco republicanos não se restringem a esses dois partidos, engolfando todos os que estão em algum poder, mas eles parecem encarná-los à perfeição.

O problema de alguns é tentar fazer crer ou aceitar acreditar que quase todo mundo está na rua pela “retucanização” do Brasil ou pela sua “arenização”, que seria um retorno ao passado, defendido no facebook, em “Golpe 2014” ou numa marcha da liberdade pela reconstrução do país.

Nas ruas há um pouco de tudo isso.

Os protestos mais contundentes têm sido focados: contra os aumentos das passagens de ônibus, contra os gastos excessivos na preparação da Copa do Mundo, contra a irracionalidade dos critérios de investimentos públicos, contra o cinismo dos três poderes da nação, contra as promessas não cumpridas e também contra a grande corrupção e a falta de punição aos corruptos.

Nas ruas, praticamente não aparecem cartazes com “pautas conservadoras”.

Os movimentos quando são contra o governo Dilma, naquilo que é da sua responsabilidade, por exemplo, os gastos com a Copa do Mundo, não são a favor dos seus adversários. 

As tentativas de apropriação pela direita estão ocorrendo fora do êxtase das passeatas.

Reduzir as manifestações a uma cruzada moral contra o governo Dilma é a armadilha da classe mídia para parte da classe média. 

Os beneficiários poderiam ser o tucano Aécio Neves, embora Geraldo Alckmin seja alvo em São Paulo, Eduardo Campos, que tenta correr por fora, e Joaquim Barbosa, como Dom Sebastião ressuscitado. Salvo se Marina Silva puder entrar na corrida.

Ou se Lula for chamado para sacrificar Dilma em benefício da causa maior.

O mais provável é que nada disso aconteça e Dilma, Aécio, Campos e Marina tenham de lutar em torno dos escombros das manifestações do inesquecível ano de 2013.

Há crise de representatividade. Será o fim da representação?

Não parece. O que se quer é ter representantes melhores e mais participação direta.

A classe mídia não sabe se bota mais lenha fogueira ou se joga água para apagar o incêndio.

O seu lado conservador chama os bombeiros.

O seu lado oportunista cutuca os incendiários.

Nas ruas, os jovens manifestantes cobram mais e melhor de todos e repudiam o mais do mesmo justificado por alguns avanços. Não se aceita chantagem.

Postado no blog Juremir Machado da Silva em 24/06/2013


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