14 julho 2013

O peso da idade


foto: reprodução
Nanda Bouças

Os brasileiros tendem a manter relações, a ligação com a família e os idosos sempre estão presentes nestes contextos, diferente de alguns países onde o destino certo de um idoso é a solidão.

Lógico que também não chegamos nem perto dos países asiáticos, onde os mais velhos tem quase o que posso chamar de “criador e criatura”, possuindo papel de destaque e respeito pelos seus antecessores. 

Talvez seja esta relação de respeito que falta do lado de cá, com mais compreensão, mais paciência e mais afeto aos idosos, mas nem tudo é como deveria ser, não é mesmo?

O que quero trazer a respeito é esse lado ainda errôneo da relação com os idosos. Repassando mentalmente algumas famílias que conheço, observei que minha realidade é um tanto diferente da maioria dos meus amigos por exemplo.

Falo isso, pois moro com meus pais e a minha mãe trouxe minha avó para poder morar conosco, uma vez que ela não havia mais condições de morar só (minha avó hoje sofre de demência e problemas respiratórios sérios). Nossa vida hoje é literalmente invadida por essa realidade: um idoso que necessita de cuidados, e quando digo cuidados é no sentido mais amplo que vocês possam dar a palavra, desde o banho a alimentação. Tudo precisa ser devidamente monitorado, além de precisarmos oferecer companhia diária e ininterrupta, missão que posso dizer que é sim cansativa. Mas gratificante.

Minha avó foi, em sua fase de lucidez e saúde, uma das figuras mais presentes e dominantes em toda a minha infância e parte da minha adolescência. Sempre ativa e destemida, contagiava a todos com sua vitalidade. Quando ela começou a apresentar os primeiros sintomas da sua nova condição, não pensamos duas vezes em poder está mais presentes nesta transição, pois não poderíamos fechar as portas e nos redimir das responsabilidades (e dos sentimentos).

A questão que quero trazer é que, infelizmente, muita gente não consegue encarar desta forma. Muita gente por aí acha que “gente velha” é um fardo (mesmo quando saudáveis), e que se não houver compensações financeiras depois, não merece se quer preocupação…E quando vejo isso só consigo lamentar.

Idosos são sim mais lentos, são mais teimosos, são mais tinhosos, mas também são os mais amorosos, os mais vividos e mais sábios. Suas experiências nos levam a passar horas escutando suas histórias e imaginando aquela realidade da qual estamos tão distantes.

Pobres são aqueles que não conseguem absorver a vitalidade que vai embora a cada dia, a cada gesto e a cada sorriso singelo que nos dão. 

Posso chegar a ficar horas calada, olhando minha avó dormir ou tremer aquela mão calejada e penso que hoje é difícil cuidar dela, mas o que seria de mim se ela não estivesse aqui, se não tivesse presença em toda minha vida até então? Mesmo com suas condições delicadas, não sei nem se estou preparada para suportar o dia em que ela partir, pois sua presença embebeda meus dias. A cada banho em que dou, a cada comida que corto miudinha porque ela não consegue mais mastigar com aquela presteza de antes, a cada “chatice”, “encheção de saco” ou seja lá o nome que dão para os cuidados com os velhos, sinceramente me sinto um pouco mais competente e completa como ser humano.

Sei que existem famílias que simplesmente esquecem e isolam o idoso, ou colocam todo aquele cuidado em cima de um só familiar, ou pagam simplesmente uma casa de repouso ou enfermeiros (para aqueles que tem uma boa condição financeira) e com isso esquecem ou fazem de conta que esqueceram quem eles são.

Sei que tem gente que finge que não sabe que o dia a dia deles é delicado, e que nossa presença é importante. Mas sinceramente não acredito que algo pague a alegria deles quando você resolve fazer aquela visitinha despretensiosa. Ou quando você mostra um sorriso ao cuidar deles.

Eu sou só um pequeno exemplo do que sei que muitas famílias fazem pelos seus entes mais velhos, mas o que dizer daqueles que se aproveitam da aposentadoria, que se aproveitam do teto em que eles moram, daqueles que abandonam e não procuram nem saber como estão? Ou que torcem pela sua partida esperando as migalhas da “herança”? E o que dizer dos filhos que se consideram órfãos de pais vivos, só porque são velhos demais e dão trabalho? E isso não é só em casos especiais. 

Você aí que tem um avô ou uma avó vivos… Já ligou pra eles essa semana? Já os visitou esse mês? Eles querem pouco e muita gente, nem isso dá. Todo mundo se contenta apenas em respeitar um estatuto do idoso, em não bater ou maltratar (como se isso fosse um grande feito) e mais nada.

Mas um dia você aí do outro lado vai envelhecer, assim como eu aqui, e eu tenho fé que possamos viver para tanto. E se você se encaixa nessa lista de “abandonadores”, eu só espero que você tenha um destino melhor do que o “cuidado tão especial” que você tem com aquele que hoje despreza. 

Velhice meus caros, não é doença, e sim condição. Eu, você, nossos amigos… Todos vamos envelhecer, e talvez estejamos em condições ainda piores, e tudo aquilo que passamos a vida plantando é o que colhemos. 

Não faço e não quero que façam nada por esperar algo em troca, mas indico que façam por si. Respeitar os direitos que estão redigidos no estatuto do idoso não é absolutamente nada quando se tem respeito e amor pelo próximo. E é uma pena saber que muita gente precisa de meio mundo de artigos e disposições legais para poder entender isso.

Postado no blog Pipoca Pimenta e Poesia em 05/06/2013






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