30 dezembro 2013

Idiotas no meio do caminho e Troféu Bolsonaro




Juremir Machado da Silva

O ano de 2013 termina como começou: com dois idiotas no meio do caminho. No meio do caminho tinha dois idiotas. Nunca nos esqueceremos desse acontecimento na vida das nossas retinas tão saturadas de imagens estúpidas da sociedade “midiocre”. Tinha dois idiotas no meio da caminho, em cima da calçada, à beira do mar, dois idiotas graníticos.

No caso, os dois que picharam a estátua de Drummond no Rio de Janeiro.

Mas foram muitos os idiotas que, ao longo do ano, atrapalharam o trânsito, congestionaram a vida, mamaram nas tetas públicas, enrolaram a população, confundiram mérito com meritocracia, objetividade com ideologia, análise com senso comum e justiça com acerto de contas.

Por sorte, no meio do caminho do planeta tinha também Edward Snowden, Pepe Mujica, Papa Francisco e tantos outros andando na contramão.

Como faço todo ano, embora outros já o façam agora, apresentarei a lista dos ganhadores do troféu Jair Bolsonaro de jornalismo lacerdinha 2013.

10 – Arnaldo Jabor (anda desaparecido o velho reaça. Mas ainda está na ativa. Aparece nesta lista somente por efeito residual)

9 – Lobão (publicou livro, arranjou novas colunas para fazer, mas se limita a repetir um discurso de coronel apaixonado pelo golpe de 1964. Notabilizou-se pela coerência ao criticar Pepe Mujica pela legalização da maconha).

8 – Reinaldo Azevedo (outro que, apesar de novas fontes de renda e de mais espaço para vociferar, continuou a servir seu velho discurso macartista dos anos 1950 temperado com inspirações lacerdistas e fórmulas requentadas)

7 – Merval Pereira (o imortal global atolou-se na sua verborreia lacerdinha, mas não conseguiu uma só página digna de nota. O pior da sua performance é na televisão: não articula três frases que possam ser chamadas de analíticas. Quanto menos explica, mais se consagra)

6 – Miriam Leitão (finge não ser lacerdinha em política, mas exala o seu lacerdismo em economia. Suas previsões jamais se confirmam, o que a torna imbatível. Sempre prevê o caos. Tenta ser melhor anunciando o pior)

5 – Marco Antonio Villa (dublê de historiador lacerdinha e de comentarista lacerdão ganhou destaque por ter mais leituras do que seus concorrentes, o que lhe permite ser reacionário com algum verniz bibliográfico)

4 – Demétrio Magnoli (parecia ter potencial para mais, mas, apesar de ter arranjado novo emprego, não encontrou novas fórmulas reacionárias. Mesmo assim é uma estrela ascendente do jornalismo lacerdinha).

3 – Nelson Motta (correndo por fora, “Nelsinho” produziu algumas das pérolas lacerdinhas mais hilárias do ano: um reacionarismo quase ingênuo, tosco, primário, ruminante, deliciosamente estúpido, avassalador)

2 – Ruy Castro (por trás de uma retórica aparentemente discreta o colunista exala um ranço que se eleva como o cheiro de um incenso vagabundo)

1 – Eliane Cantanhêde (a colunista tucana da Folha de S. Paulo tem-se destacado pela singularidade do seu raciocínio enviesado, mesclado de futilidade com pretensões à profundidade. Chama atenção a sua perseverança, convicção e falta de renovação da abordagem)

Há outros certamente, mas não me impressionaram. Em se tratando de veículos, Veja mantém a liderança, mas a Folha de S. Paulo tomou o segundo lugar ao Globo e ao Estadão pela política agressiva de contratação de novos colunistas lacerdinhas, entre os quais Reinaldo Azevedo. É possível que aconteça uma fusão ideológica entre Veja e Folha.

Vale à pena também eleger seriamente o colunista do ano: Jânio de Freitas.

Não teve para ninguém.

Nenhum jornalista analisou o julgamento do mensalão como ele.

Um show de lucidez, coerência, equilíbrio e argumentação lógica.


Postado no blog Juremir Machado da Silva em 28/12/2013

Nota

Carlos Lacerda foi um jornalista de direita, ultra conservador e retrógrado a serviço da "elite",  na década de 50, que perseguiu, implacavelmente, o Presidente Getúlio Vargas pelas ações sociais como criação do Salário Mínimo, CLT, Petrobras e outras. 


Reza a lenda que o atentado a tiros, sofrido pelo jornalista, foi maquinado por ele mesmo, para colocar a culpa no Governo.


O final desta história todos sabemos, o suicídio do Presidente. 


O jornalista, professor universitário, historiador e escritor Juremir Machado da Silva, rotula de "Lacerdinha" aquele(a) que segue o jeito de ser, pensar e agir de Carlos Lacerda. 

                                                        
(Rosa Maria - editora do blog)


Juremir define assim um "lacerdinha":

Dez maneiras de identificar um lacerdinha:

1 – Um sujeito que, em nome da direita, diz que não há mais direita e esquerda, fazendo, em seguida, um discurso furioso, radical e fanático contra a esquerda que não existe.

2 – Um cara que, em defesa da sua ideologia, afirma que não existem mais ideologias e, na sequência, faz um discurso ideológico fanático contra o ideologismo de esquerda.

3 – Um sujeito que treme de fúria ideológica, chamando seus oponentes de burros, atrasados, imbecis, perigosos e radicais, em nome da neutralidade analítica.

4 – Um cara que, ao ouvir uma crítica a um ditador de direita, acha que haverá necessariamente a defesa de um ditador de esquerda.

5 – Uma figura que jamais criticou a Lei do Boi – cotas para filhos de fazendeiros em universidades públicas –, mas é contra cotas raciais e até sociais.

6 – Um tipo que defende a democracia, mas está disposto a apoiar ditaduras de direita se elas lhe trouxeram benefícios econômicos e silenciarem seus oponentes.

7 – Um “ponderado” analista, defensor do Estado mínimo, que exigirá um Estado máximo quando sua empresa estiver falindo ou precisando de um empréstimo a juros baixos.

8 – Um crítico ferrenho de políticas de compensação por falta de oportunidades equivalentes salvo quando, como produtor, exige compensações por se sentir sem condições equivalentes para competir, por exemplo, no mercado internacional.

9 – Um indivíduo que passa a vida classificando as pessoas em nós e eles, fanáticos e razoáveis, estúpidos e racionais, xiitas e ponderados, e, quando classificado de lacerdinha, faz longos discursos contra esse tipo de simplificação classificatória.

10 – O representante de grupos que sempre encontraram maneiras de obter benefícios a partir de casuísmos, leis de exceção, contingências mais ou menos justificadas, contextos sociais e históricos, mas que, quando seus oponentes se organizam para tirar-lhes privilégios ou reparar prejuízos históricos, transformam-se em defensores de princípios pretensamente racionais, abstratos e universais de concorrência.

Há outras maneiras de identificar um lacerdinha, mais práticas:

– Contra cotas, aquecimento global, áreas de proteção permanente, pagamento de multas por destruição do meio ambiente, código florestal ambientalista, impostos sobre grandes fortunas, bolsa-família, Prouni e outras políticas ditas assistencialista.

– A favor de incentivos fiscais para empresas multinacionais.

– Contra comissão da verdade e qualquer investigação que possa deixar mal os torturadores do regime militar brasileiro implantado em 1964.

– Contra a corrupção, especialmente se envolver políticos de esquerda, sem a mesma verve quando se trata de algum corrupto de direita.

– Sempre pronto a chamar de petista quem lhe pisar nos calcanhares.

– Estrategicamente convencido de que a corrupção no Brasil foi inventada pela esquerda.

– A favor da universidade pública para os melhores, desde que o sistema não se alterne e os melhores continuem sendo majoritariamente os filhos dos mais ricos e com melhores condições de preparação e de ganhar uma corrida pretensamente objetiva e neutra.

– Defensor da ideia de que, na vida, é cada um por si, salvo se houver quebra de safra, redução nos lucros, crise econômica internacional ou qualquer prejuízo maior. Nesses casos, o Estado deixa de ser tentacular, abstrato e opressor para ser uma associação de pessoas em favor dos interesses da sociedade na sua totalidade.

Faça o teste: quem preencher 60% dessas características é um lacerdinha.

Teste definitivo: lacerdinha é todo cara que se ofende ao ser chamado de lacerdinha.


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