20 novembro 2014

Resgatando a criança interior



"Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus".

 Mateus 18:3 
Paulo Tavarez


O que fizemos com a nossa criança interior? Onde foi parar aquela alegria de viver? Por que tornei-me um adulto chato, rancoroso, exigente e preocupado? 

A sociedade se orienta pela disciplina, premia com elogios aquela criança comportada, quieta e introvertida enquanto pune a curiosa, alegre, extrovertida e bagunceira, com isso, estimula ações pedagógicas repressoras, voltadas para uma padronização. 

O discurso de seriedade e obediência foi amplamente aceito, transformou-se em um modelo a ser seguido e hoje faz parte do senso comum. Tudo isso por que ninguém quer lidar com a leveza, a descontração e o desprendimento que são tão comuns na infância. 

Quando não estamos atuando de forma coercitiva com nossos filhos, criamos espaços para que eles não nos incomodem, pois raramente nos damos o trabalho de entrar em seus territórios, preferimos esperar que cresçam dentro desse isolamento e não percebemos que isso cria abismos que culminam em conflitos de gerações. 

Ao nos confrontarmos, portanto, com as crianças, queremos agir de forma repressora, impulsionados por esses modelos estabelecidos - os mesmos que nos ensinaram - dessa forma, queremos que se comportem como nós, adultos, e esse é maior equívoco, pois criamos mecanismos que atuam na desconstrução de comportamentos que julgamos inadequados no convívio com eles e o resultado é que desde a mais tenra idade a criança sofre com proibições e freios de toda espécie. 

Todo esse conjunto de procedimentos acabou criando uma sociedade de androides, uniformizada, que vive totalmente dissociada da própria natureza; uma espécie de ser humano que perdeu a completa conexão com a própria alma e vive sob os comandos de um programa que desconhece, cumprindo funções programadas, buscando o seu lugar dentro de um quadro social de controle, consequentemente, grande parte da humanidade vive totalmente inconsciente desta condição de servidão. 

O filósofo Jean Paul Sartre errou ao postular que a existência precede a essência; é exatamente o contrário, nossa essência se perdeu, foi completamente subjugada por um existência escrava de regras e modelos impostos, que nos ajustam de forma perversa aos imperativos do mundo. 

Poucos consideram a possibilidade de entrar no universo infantil e buscar uma interação mais profunda com a realidade enxergada e vivida por eles, poucos julgam relevante o estado de perfeita harmonia com o Todo que expressam, preferem pensar a criança como um estágio de inocência, sem perceberem que ostentam uma inocência (ou ignorância) muito maior do próprio Ser. 

Na verdade, todos nós, em algum momento, fomos violentados por preceitos educacionais, tirados à força de um mundo onde éramos felizes e estávamos descobrindo, de forma natural e gradativa, qual era o nosso papel nesse espetáculo da existência. 

A nota triste, de toda essa história, é que continuamos, como adultos, reproduzindo o mesmo comportamento de nossos pais e mestres, seguindo uma cartilha que teima em não se renovar e com isso a roda-viva permanece dentro da mesma dinâmica distorcida. 

Resgatar o nosso espírito brincalhão, alegre e descomprometido, é algo que passa pela libertação de uma criança interior que vive presa por condicionamentos impostos pela educação. 

Não podemos culpar os pais ou o mundo externo pelo estrago feito em nossa consciência, cada um ofereceu aquilo que acreditava ser o melhor, é preciso capitular, sair da condição de vítima e buscar um novo encontro consigo mesmo. 

É preciso nascer de novo, olhar o mundo sem as complicações criadas pelo medo, deixar de julgar, classificar, separar, agir no automático, não encarar a vida como uma luta, sair desse combate e simplesmente voltar a brincar. 

Jesus nos convida a agirmos como crianças, pois sabe que esse mundo é uma ilusão, deveria ser tratado com um gigantesco playground, pois nada daquilo que podemos conceber como realidade deve ser levado muito a sério. No hinduísmo, existe uma palavra que traduz de forma extraordinária esse conceito: Leela. 

Leela significa brincadeira, representa teatro da existência, simplesmente, porque trata a vida como uma encenação, algo que somos coagidos a participar. 

A vida deveria ser tratada com menos seriedade, nada daquilo que tanto valorizamos é real, trata-se de uma simples experiência, uma ilusão, a realidade está muito além dos fenômenos materiais, a realidade está na essência não na existência. 

A realidade é uma criança que vive a nossa espera, querendo brincar. 



Postado no site Somos Todos Um


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