18 outubro 2015

O vício em smartphones está criando uma geração de crianças doentes e infelizes


smartphone


Publicado na DW:


De manhã à noite, muitos passam o dia acompanhados por seus smartphones. Isso pode ser prejudicial? Sim, diz Alexander Markowetz, autor do livro Digitaler Burnout (“Burnout digital”) e professor assistente no Departamento de Ciências da Computação na Universidade de Bonn.


Ele apela para que a sociedade adote uma nova relação com o telefone celular para proteger as gerações futuras. A começar da escola, passando pela família e amigos, e indo até as grandes empresas


Deutsche Welle: Parece haver uma simbiose, uma relação quase romântica entre os usuários e o telefone celular. Ele os acompanha durante todo o dia, lembra de datas importantes, cuida da alimentação e do exercício. Na cama, à noite, o último clique do dia é no celular. Quão prejudicial pode ser esse comportamento?

Alexander Markowetz: O smartphone possui muitas funções que tornam nossa vida melhor. Sem minha agenda eletrônica pessoal, eu estaria totalmente perdido. Só precisamos aprender a lidar com o aparelho. 

Passamos sete minutos por dia telefonando e duas horas e meia interagindo com o celular. Isso dá uma média de 55 inicializações diárias, ou seja: ligar, logar e digitar. 

Cerca de 10% das pessoas fazem isso mais de 90 vezes por dia. Mas o nosso dia não pode ter tantas grandes escolhas assim, envolvendo esse longo processo racional. Portanto trata-se de pequenos automatismos inconscientes. É provável que só controlemos conscientemente 10% do nosso comportamento com o celular. Portanto, de oito horas ativas por dia, ele ocupa um terço.

É ruim gastar duas horas e meia com esse tipo de diversão, jogando tempo fora?

O problema não são as duas horas e meia, mas o número de interrupções: a cada 18 minutos faço alguma coisa no celular. Interrupções podem vir também de outros meios de comunicação, como chamadas telefônicas, mensagem de texto ou a TV. Em suma, nós nos interrompemos constantemente com um sistema multitarefa autoimposto, vivenciamos uma fragmentação do nosso dia. 

Nós, seres humanos, ainda não fomos criados para a multitarefa, e dirigimos alternadamente a nossa consciência a diferentes atividades. Quando surge o tédio, mudamos de ocupação. Com o tempo, isso causa estresse. Nós perdemos produtividade e sentimento de satisfação, pois não conseguimos entrar num fluxo de trabalho.

Quais são as consequências de uma concentração constantemente interrompida?

Um exemplo: na ioga, adotamos uma postura correta e tentamos nos concentrar. Se fizéssemos meia hora de ioga todos os dias, em sete anos seríamos pessoas relaxadas.

Com os smartphones, porém, ficamos numa postura absurdamente incorreta, do ponto de vista ortopédico, e queremos nos distrair mentalmente o mais rápido possível. Assim, fazemos “anti-ioga” duas horas e meia por dia. Ficamos estressados e deprimidos, e a nossa atenção se esfacela. 

Que efeito, exatamente, isso terá em nossa sociedade nos próximos anos, ainda não foi cientificamente estudado, até porque os smartphones não estão há tanto tempo no mercado.

Além disso, faltam as “minipausas” compulsórias no nosso dia a dia – a espera pelo ônibus ou por um compromisso. Nós abolimos esse “tempo morto”, mesmo ele nos ajudando a descansar por alguns instantes. Esses momentos são centrais na terapia de estresse e depressão. Nela pratica-se o estado de alerta, ou seja, um método que ensina passividade positiva.

Temos que evitar interrupções. O problema está em nós e em nosso ambiente. Precisamos reconhecer e reduzir o nosso comportamento. Pessoalmente, ajuda uma “dieta digital”. 

A fim de nos interrompermos menos precisamos de uma “etiqueta de comunicação”. Para uma dieta digital, eu preciso mudar os meus hábitos, me condicionando e moldando o meu entorno para que ele me desvie do celular. Por exemplo: olhar as horas no relógio de pulso, em vez de ligar o telefone para isso.

Como estabelecer uma “etiqueta da comunicação”?

O ser humano não é autossuficiente e não pode decidir por si quantas vezes é interrompido por comunicações externas. Esse é um problema social e cultural. Temos que começar a ter consideração mútua.

Precisamos saber que cada um assume a responsabilidade pela saúde mental do próximo. Cada um deve refletir conscientemente quando a comunicação serve a um propósito. É melhor escrevermos um e-mail longo do que ficar enviando mensagens curtas.

As crianças aprendiam a não telefonar para ninguém após as oito da noite. E tampouco entre o meio-dia e as 15h00, que é a hora do almoço. Essa etiqueta se perdeu, mas precisamos retomá-la. Começando na nossa família e entre amigos e indo até as grandes empresas. 

Ninguém pode resolver essa questão sozinho, só podemos abordá-la num pequeno círculo. Dos nossos contatos, 80% são com um máximo de cinco pessoas. Se cultivarmos aí uma etiqueta da comunicação, já é um começo.

Se os adolescentes fazem duas horas e meia diárias de “anti-ioga”, então será uma geração bastante depressiva e improdutiva, sofrendo de falta de concentração. O que os pais podem fazer contra isso?

O problema central é que os jovens não têm experiência offline. Se hoje um jovem de 15 anos é obrigado a se desconectar, seu mundo desaba. Ele não pode perder nada. 

Quer dizer, teriam que acontecer coisas realmente importantes a cada 15 minutos. Mas, se ele perceber que, depois desse espaço de tempo, o mundo continua existindo, já seria um avanço. Na psicoterapia, isso é chamado de “terapia de exposição”. 

Já poderíamos começar na escola, ensinando a dieta digital e a etiqueta da comunicação como técnicas culturais. O problema é que ainda não sabemos as respostas definitivas.

As crianças veem os smartphones como algo natural, crescem com eles e aprendem vendo o nosso comportamento. Como podemos transmitir a elas esse “livro de etiqueta do celular”?

Os pais podem combinar dentro das classes e estabelecer, por exemplo, que depois das 20h00 todos recolhem os telefones celulares. Então estará claro para toda criança que não vai haver “festa do Whatsapp”. 

Mesmo que ela quisesse roubar o celular dos pais, não haveria ninguém com quem conversar. 

Deve se criar uma cultura que impeça as crianças de se fazerem mutuamente doentes e infelizes.


Postado no Diário do Centro do Mundo em 18/10/2015



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