16 novembro 2015

Saudade não é falta. Saudade é presença imortalizada dentro da gente




Rebeca Bedone


Tem dias que acordamos vazios. Na vida que segue com tantos compromissos e trabalho, a falta de algum lugar ou de alguém nos acompanha. É como o céu nublado onde não há sol. Nessas horas, resta-nos o silêncio frio e o desalento cinza, como se nada mais nos preenchesse além da melancolia que existe — e resiste — dentro da gente.

É que tem dias que surge um buraco enorme aqui dentro. É a dor pelo que já foi e não é mais, e a ausência que se repete em sonhos enquanto dormimos. Como dói a solidão de um velho homem ao relembrar suas histórias.

Porque, outro dia, a morte chegou inesperada. Algumas pessoas partiram para longe. O relacionamento acabou. Os filhos foram estudar fora. Mas toda essa gente também ficou. Suas lembranças ficaram impressas em nossa alma, como um poema decorado. A saudade imortalizou-se no abraço de adeus, no bilhete carinhoso e na espera do reencontro.

Não é à toa que poetas escreveram tantas vezes sobre a “saudade”. Pablo Neruda procurou o sentido “desta doce palavra de perfis ambíguos” e percebeu que o significado dela é senti-la. Basta fechar os olhos e sentir-se a si mesmo e o vazio dentro de si: o sorriso da vovó e os óculos engraçados do vovô, o primeiro dia de aula na escola nova, a sapatilha de balé, o choro do recém-nascido na sala de parto, o cheiro do bolo saindo do forno, a entrada na faculdade, o ipê cor de rosa, a jabuticabeira carregada, a família distante. “É preciso a saudade para eu sentir como sinto — em mim — a presença misteriosa da vida.” (Mario Quintana).

Porque saudade também é inspiração. Elas chegam nas horas mais inesperadas. Num momento de distração, a velha sensação de vazio se transforma em música, dança ou poesia. Você está caminhando no seu dia cinzento e, de repente, uma ideia invade a sua mente: é o esboço de um novo verso, é a cor da esperança que você procurava.

Vinicius de Moraes disse que “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”. Ter saudade não é fácil, porque ela nos deixa perdidos e abandonados dentro da vida. Por isso, precisamos olhar para o nosso vazio a ponto de compreendê-lo. Assim, compreenderemos a nós mesmos e conseguiremos transformar a ausência em algo bom e bonito.

“Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.” Ao ler Carlos Drummond de Andrade, sinta a saudade nos seus braços. Abrace-a. Aconchegue-a. Então ria e dance com as recordações incríveis que se foram. Percorra o rio da sua mente e mergulhe em sua alma, preencha com sentidos e imaginação o vácuo da saudade.

Sinta. Inspire-se. Vire-se do avesso e encontre sua verdade. Aguente até amanhã. A presença do seu vazio é que vai lhe trazer coragem necessária para ser aquilo que deseja. E amanhã o sol sairá das tuas nuvens sombrias.


Postado no Bula


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