20 março 2013

Desapegue





Promover uma limpeza em casa, descartando inclusive aqueles com algum valor sentimental, é uma excelente estratégia para renovar energias. Desapegar-se do passado é um caminho para viver o presente com muito mais intensidade

Por Rita Trevisan e Caroline Bastos

No livro Jogue Fora 50 Coisas (editora Ediouro), o autor Gail Blanke dá um recado direto a seus leitores, defendendo a prática do desapego como um caminho para o sucesso nos negócios e no amor. 

Em sua obra, Blanke nos convida a nos desfazermos de pelo menos 50 objetos que temos em casa, no prazo de duas semanas. Com o exercício, ele afirma que é possível tocar a vida com mais eficiência. 

Parece fácil? Pois tente fazer agora uma listinha imaginária de coisas das quais poderia se desligar imediatamente e verá que o desafio não é tão simples assim. 

Pode ter certeza de que, nessa breve viagem para dentro de si, você vai acabar dando de cara com um sentimento que insiste em se esconder dentro da gente: o apego. “Em verdade, não nos apegamos aos objetos em si, mas às emoções ou histórias de vida que eles representam”, explica a psicóloga Rosana Zanella, professora do Instituto Sedes Sapientiae. Uma simples camiseta, por exemplo, pode nos remeter a uma lembrança, a um momento ou a uma pessoa que foi importante em alguma fase da nossa vida. Daí a dificuldade de simplesmente descartá-la. 

“Desde a infância, vamos construindo a nossa personalidade a partir da identificação que temos com outras pessoas, mas também com os objetos. Esses, por sua vez, ajudam na compreensão de quem somos e, por isso mesmo, podemos dizer que todos nós, em maior ou menor grau, somos apegados aos objetos que temos”, garante o psicólogo Felipe Souza. 

O X da questão, no entanto, é que nós mudamos muito ao longo da vida e acumular objetos, em geral, pode significar juntar lembranças que jamais serão revisitadas, tanto quanto roupas e acessórios que nunca mais serão usados. E, nesse sentido, estaremos simplesmente desperdiçando espaço físico e energia. 

Assim sendo, guardar um ou outro objeto que não tem utilidade, mas tem um significado especial em nossa vida, até passa. Mas daí a acumular uma série deles, sem nem se perguntar o porquê, há uma grande distância. 

“O problema maior do apego diz respeito à transitoriedade da vida. Se a pessoa se habitua a ser apegada, terá muitas dificuldades à medida que envelhecer, pois todos os seus objetos pessoais vão envelhecer com ela, tornando-se muitas vezes inúteis, inapropriados, ou até mesmo lixo”, alerta Souza. 

Sob essa perspectiva, fica mais do que justificada a necessidade de botar a casa abaixo de tempos em tempos, avaliando o que precisa ser tirado de circulação e abrindo espaço para o novo.

Da teoria à prática 

Sim, o exercício do desapego deve partir mesmo de uma reflexão, uma espécie de exercício de autoconhecimento.

É preciso olhar tudo aquilo o que viemos acumulando com o tempo, mas também olharmos a nós mesmas, nos perguntando se aquilo ainda nos acrescenta algo ou, se ao contrário, não faz mais a menor diferença na vida que vivemos hoje. 

“Comece aos poucos: vá pegando os seus objetos pessoais, olhe para eles e faça a si mesma alguns questionamentos, como: “Eu preciso disso? Vou usar? Me sinto bem usando ou olhando para isso?” Se as respostas forem sim, guarde. Caso contrário, livre-se deles o mais rápido possível”, ensina Cristiane Cappa, psicoterapeuta transpessoal.

Assim, você pode descobrir que o vaso pintado pela sua avó foi um presente lindo, numa ocasião muito especial, mas que agora ele já não combina com a decoração da sua casa e pode muito bem ser doado, para que outro objeto deixe a sua sala ainda mais interessante.

Além desse exercício, você pode tentar seguir outra dica prática do autor Gail Blanke para praticar o desapego, começando já.

A ideia é usar três sacos plásticos com as etiquetas “guardar”, “doar” e “vender”.

Em cada um desses sacos, você deve colocar pelo menos 10 itens que considera preciosos. Então, para evitar de acumular coisas desnecessárias, bastará repetir esse exercício rotineiramente. 

“Quando tomamos esse tipo de iniciativa, além de nos livrarmos de objetos que não servem mais, abrindo espaço para o novo, estamos nos desapegando de sensações e sentimentos que já não são mais tão agradáveis, que ficaram no passado. Isso nos permite viver o presente com mais intensidade”, afirma Cristiane. 

“É preciso ter em mente que mesmo os objetos que nos trazem boas lembranças podem e devem ser descartados ao longo da vida. Isso porque as nossas histórias têm que ficar gravadas na memória e não nos objetos que possuímos. Apegar-se a objetos do passado pode nos impedir de crescer em direção ao futuro. E a vida acontece no aqui e agora”, complementa Rosana.

Regras de ouro 

Para você doar objetos pessoais é sempre um drama? Os especialistas ouvidos nesta matéria dão dicas de como tirar de letra esse desafio. 

• Se vai começar a limpeza pelo seu guarda-roupas, por exemplo, o primeiro passo é deixar tudo o que há dentro dele à vista.

• Objetos que não têm mais utilidade, como meias e brincos sem os pares, devem ir diretamente para o lixo.

• Separe tudo o que você já nem se lembrava que tinha. É sinal de que são peças totalmente desnecessárias. Essas podem ser doadas ou vendidas.

• Olhe os demais objetos e pergunte a si mesma: eu preciso disso? 

• Pare para pensar sobre os objetos que lhe trazem recordações especiais e que são, de longe, os mais difíceis de tirar da gaveta. Use outra regrinha: se ao olhar para a peça, você remete para acontecimentos que não foram tão bons na sua vida, melhor retirá-la imediatamente do seu armário. Fique com as que lhe causam boas sensações. E, mesmo assim, por tempo determinado! Lembre-se sempre: quanto menos coisas velhas juntar, mais espaço e disponibilidade para as novas aquisições e experiências você terá.

Vender ou doar?

Além de decidir sobre o que quer ou não quer mais guardar, nesse exercício você será convidada a decidir entre doar ou vender os bens que têm.

Em linhas gerais, vale a pena vender o que pode lhe trazer algum lucro, como joias, roupas caras, objetos de arte, eletrodomésticos ou móveis muito antigos. Brinquedos, objetos de infância ou de família, porém, podem ser doados. 

“Doar é um exercício de desapego ainda maior do que vender, à medida que não receberemos nada em troca. De qualquer forma, vender já é mudar, trocando-se uma coisa a que éramos apegadas por uma soma com a qual poderemos adquirir objetos totalmente novos”, pondera Rosana.

Depois de colocar seus objetos nos três sacos sugeridos, ainda restará organizar o que ficou, o que permitirá abrir espaço para as novidades.

“O apego aprisiona, limita e, principalmente, nos impede de enxergarmos novos caminhos, novas possibilidades e oportunidades. 

O desapego é justamente o contrário, ele nos traz uma sensação incrível de liberdade e bem-estar, uma motivação extra para mudar e nos melhorarmos”, garante Cristiane. 

Viu só? Então, embarque já nessa operação-limpeza! Hoje, agora, pra ontem!

Postado no blog Uma Mulher em 14/12/2012


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