18 outubro 2014

Culpa que aprisiona



Hellen Mourão

A culpa é um sentimento básico da humanidade. Um sentimento denso, pesado e tóxico, que pode se manifestar de duas formas: uma é projetando nossos infortúnios em algum bode expiatório, ou se voltando contra nós mesmos.

A culpa é uma frustração causada pela distância entre o que não fomos e uma imagem criada pelo ego daquilo que achamos que deveríamos ter sido.

Ela aprisiona o indivíduo, que se mantém voltado para o passado e a um papel de vítima dos outros e das circunstâncias. E ficar preso dessa forma significa nunca progredir, mantendo-se atados a sentimentos de raiva, angústia e vingança, chegando até a depressão.

Além disso, a culpa é um sentimento de extrema arrogância. Ele se baseia em princípios egoicos de uma moral preestabelecida. Onde nos achamos donos da verdade, a ponto de querer definir o que é certo e errado. 

A culpa faz com que o indivíduo se submeta a uma punição para tentar se esquivar de sofrer uma punição ainda mais severa por causa do erro que cometeu, mantendo o indivíduo preso. 

Na culpa, há uma resistência em aceitar a realidade das coisas e da situação. E infelizmente as religiões judaico-cristãs reforçam o sentimento de culpa com seus dogmas aprisionantes. 

Entretanto, nos ensinamentos de Cristo vemos algo completamente diferente. E neles pode estar a chave para transformar a culpa paralisante em algo produtivo, pois Cristo não fala em culpa, mas sim em arrependimento. E esses dois termos possuem uma diferença significativa.

A palavra arrependimento é de origem grega (μετάνοια, metanoia) e significa conversão (tanto espiritual, como intelectual).

No arrependimento, há uma mudança de direção. O indivíduo agora resolve ter uma atitude oposta à anterior. 

Ou seja, no arrependimento está contida uma ação baseada em uma reflexão anterior. É uma ampliação de consciência que leva o individuo a buscar novos caminhos e aprendizados.

Além disso, a culpa sempre sucede uma transgressão. 

Transgressão significa a ação humana de atravessar, exceder, ultrapassar as noções que pressupõem a existência de uma norma que estabelece e demarca limites.

Em toda atividade criativa humana há transgressão. Psicologicamente, o indivíduo que transgride busca a superação de si mesmo na ruptura com o mundo que o cerca. Aquilo que não serve mais, que aprisiona que mantém infantilizado deve ser transgredido.

Ao longo da história, temos vários exemplos de transgressão de normas vigentes em sua época. Exemplos revolucionários como Galileu Galilei e o próprio Cristo.

Cada um, ao buscar, ao inventar, ao tentar o novo, incorre em transgressão. E com ela vem a culpa.

Portanto, devemos transgredir a própria culpa se não quisermos ficar paralisados. Não que a partir de hoje não devamos mais distinguir o que é certo e errado. Na verdade, devemos criar uma ética interna baseada na experiência, provinda de uma reflexão profunda. 

Aceitar que vamos falhar e errar, que nada é perfeito. Que bem e mal podem ser relativos, pois para o inconsciente não há certo e errado, ele é totalidade.

Aceitar que todas as situações que experienciamos em nossa vida são aprendizados. Devemos perder o medo do fracasso, pois sem ele não há a vitória. 

Só assim podemos transmutar a culpa aprisionante em uma experiência de arrependimento que amplie a nossa consciência e nos traga uma ética que transcende normas externas.

Psicanalista formada pela Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa. Analista Junguiana formada pela Facis - Ibehe. Especialista em Mitologia e Contos de Fada


Postado no site Somos Todos Um


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